Carnaval

•February 22, 2015 • Leave a Comment

Como típico paulistano, nunca tive grandes afeições pelo carnaval. Quando pequeno, em minhas memórias, tenho apenas o fantasioso desfile das escolas de samba que passavam nas emissoras de televisão, não entendia, e até hoje não entendo, o porquê chamavam aquilo de “folia”, ou porque chamavam de grande festa popular. Afinal de contas não há nada de popular ao pagar uma exorbitante quantia para ver pessoas com fantasias iguais passarem por uma avenida, bancada por bicheiros, traficantes, governantes e outros maquiavélicos por aí, para uma platéia absolutamente sonolenta.

Conforme fui amadurecendo passei a entender melhor o significado da festa. Continuo porem não me afeiçoando por tal festa, não sou adepto a grandes multidões, a alegria vã que é lançada aos ventos no carnaval não perfuma minhas narinas, as músicas lançadas pelas grandes gravadoras e que tocam como nunca no verão não são de meu gosto, e acabam por me irritar. Além disso o tom ufanista que toma as ruas do país me incomoda, há uma esperança de que o ano vá realmente começar depois do carnaval, que tudo será então melhor, quando penso sobre tal estupidez grito aos ventos (em tom de sussurro para não parecer maluco) “se o ano começa três meses após o reveilon, nada pode melhorar!”.

O Carnaval traz uma coisa boa, cinco dias de folga, cinco longos dias para fazer absolutamente nada, há um pequeno porém, viagens à praia são uma atividade complexa, o transito para qualquer lado é grande, é como se todos resolvessem sair da capital paulistana, e como conseqüência todos os lugares ficam abarrotados de pessoas.

Apesar de tudo isso a capital é bela, e como é bela, vazia como a madrugada, silenciosa e tranqüila. A capital fica longe dos foliões e seus cinco dias de hormônios ensandecidos. A minha escolha nesta época sempre é a capital. Meu primeiro dia do carnaval foi maravilhoso, lugares todos vazios com pessoas sorridentes e amáveis.

Contudo a noite quando cai é impecável, pensar em cinco noites seguidas trancafiado em um apartamento pequeno, conversando com uma samambaia que nem mesmo água aprecia beber me desespera um tanto.  Olho ao redor, o copo já vazio, a cama milimetricamente desfeita, pela despensa apenas moscas passando e o sono longe de aparecer. Preciso procurar um bar, pessoas, que como eu, fujam da folia e dos foliões.

Saio pela quente madrugada a caminhar, após duas quadras encontro o bom e velho bar, está vazio, como quase todos os lugares. Sento no balcão, ao meu lado esquerdo, três bancos distante, um maltrapilho homem bebe uma cerveja, ao direito um garçom não muito animado. Analiso o local, ao ver as bebidas expostas já imaginei que a dor de cabeça seria das grandes, peço algo quente e uma cerveja.

Quando acaba a cerveja ouço ao longe uma agitação, primeiramente um som grave, colocando no chão seu ritmo impecável, depois um leve batuque, pessoas falando alto, ao fundo um grupo de sopros, tocando velhas canções de passados carnavais. O som vem se aproximando cada vez mais, penso nos foliões, e me assusto ao imaginar que aquele vazio apartamento seria meu fim, mas não antes de mais uma dose. Quando me viro, o desanimado já não estava mais ao meu lado, corria para atender os foliões molhados de bebida e suor, o maltrapilho dançava com a música que estava chegando.

Pego minha dose, junto com ela chega o som e centenas de pessoas estavam agora ao meu lado, todas felizes, nenhuma delas parece saber onde esta, nem ao menos deseja saber, aquela caravana muito me intrigava, de onde vieram, de onde saíram tais pessoas. Perguntas sem resposta. Todos ali visivelmente não pensam na dor de cabeça que o cardápio de bebidas do local traria, lembrei de tempos mais jovens, onde a ressaca e a moral eram menos presentes.

Nos dois bancos à minha esquerda, um homem e uma mulher se sentam, ela parece ter os seus quarenta, o homem mais jovem, ouvia a conversa dos dois com muita dificuldade, mas ouvia o homem tentando uma aproximação, a mulher já experiente usa das artFeatured imageimanhas da sedução para dizer não e ao mesmo tempo não deixá-lo ir.

Quando me viro vejo dois homens aos beijos, e duas mulheres indo um pouco mais além, minutos mais tarde um dos homens e uma das mulheres também estão aos beijos. Mais ao fundo rapazes pedem uma garrafa da mais barata bebida e em minutos a jogam no chão, já vazia. Um grupo de jovens garotas me chamou a atenção, primeiro pelas sensuais fantasias, segundo pelas gargalhadas, deste modo atiravam confetes aos ventos e dançavam, ora com o maltrapilho, que já não se diferenciava dos outros integrantes, ora com outros rapazes.

O encontro com tal grupo de pessoas trazia uma sensação de liberdade, e libertinagem que há tempos não sentia, um cristão radical chamaria tal grupo de caravana do inferno, ou do capeta se fosse um pouco mais demagogo. Incrível!

É o carnaval! Deixei a dor em casa me esperando e parti com o grupo, e em meio à tudo aquilo me perdi, cada bar é uma parada, cada nova música, novos sorrisos, velhos soluços, novos tropeços, velhos sentidos. Eis que me encontro novamente ao mesmo bar, tão maltrapilho quanto o meu companheiro, que se perdera no caminho, o garçom já um pouco mais animado e muitas pessoas estranhas e conhecidas. Em minha cabeça, um chapéu coco levemente amassado, em uma de minhas mãos, uma luva branca, já encardida, e em meu bolso um maço de cigarros, já não fumo há cerca de cinco anos, mas ele lá estava. A caravana foi se dissipando, muitos se despedindo de mim como um amigo de longa data.

Acabo a noite com a mulher que parecia ter os seus quarenta no apartamento de uma das jovens garotas que já não estava com seu grupo. Pela manhã a esperada dor de cabeça aparece. A mulher, como eu, gostaria apenas de estar em sua casa. Nos despedimos com um sórdido beijo e nunca mais nos vimos. Não tive a menor curiosidade de perguntar sua idade, até porque isso pouco importava, foi uma bela noite.

O que aconteceu neste percurso confesso não lembrar, por outros motivos voltei a fumar, guardo até hoje o chapéu coco, que uso em outros carnavais e festas populares. Aos estranhos digo o mesmo discurso do inicio deste texto, nego o gosto pela festa popular, não acho que o Brasil seja o país do carnaval, mas não perco um, e com freqüência encontro pessoas familiares e não recordo de onde conheço, e penso que certamente saíram de alguma noite de carnaval.

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Soneto de Narciso

•February 18, 2015 • Leave a Comment

Vou fazer uma plástica

Talvez encerre minha lástima

De ver rumar a natureza

.

Vou tirar um retrato

Ver e rever aqui sentado

Um dia a mais de beleza

.

Vou fazer um procedimento

Que por um breve momento

Me tire um pouco da fraqueza

.

Vou fazer, vou tirar, vou sair

Vou chorar por não me achar em mim

Em um hit de verão pouco vale o verso

Importante é o refrão

.

Pouco vale um feliz, melhor dois na solidão

Pouco vale o tiro por um triz

Pouco vale o anjo no chafariz

O santo ou a meretriz

Pensamento

•January 8, 2015 • Leave a Comment

O pensamento voa, vai além

Leve como a brisa que leva pra longe

Distante

Quando em ti chega já se foi.

Sempre Além

•January 7, 2013 • Leave a Comment

Sei que a distancia nos convém

A boca cala e não sorri

Os olhos choram mas não vi

E a lembrança vai além

 

Posso até fingir

O que os olhos não veem é fantasia

O que vem dela é poesia

E a lembrança vai além

 

Sei que a idade nos convém

O tempo à passar

O mundo teima em girar

E a lembrança vai além

 

Posso até sair

O que ouço nada diz

O que falo não condiz

E a lembrança vai além

 

Sou mais a noite cálida

Donzelas pálidas a soluçar por mim

Sou mais um copo cheio

E em seu recheio nada por vir

Sou mais o chão da terra

Com damas sérias a me sacudir

Sou mais a noite da cidade

Onde ainda resta um bocado de saudade

 

O Choro de Maria

•October 16, 2012 • 2 Comments

Lhe dói o peito e em seu leito

Aguarda o tão ansiado olhar

Maria chora, pensa que a demora

É um castigo de um crime que não cometeu.

 

A dolorosa ausência

A perdida essência

E o pouco que lhe resta

Um comprimido, uma imagem

E uma suave seresta

Todos estes tomados pela lembrança

 

O que virá já não lhe atenta

O que passou já não lhe alenta

Pois, apesar do mundo achar melhor

Queria estar com os seus ao redor.

 

Reze Maria, quem sabe em sua oração

Passe mais uma velha estação

Quem sabe o tempo dê um tempo

E a espera passe a virar esperança

Para que enfim sorria como criança.

 

Fernando Mostaço da Mata

Profecia

•August 10, 2012 • Leave a Comment

O profeta recitou

O que muita gente não gostou

Que o mundo ia se acabar

 

As rimas de sua profecia

Mais pareciam versos doces

De uma amável poesia

 

Eram apenas versos tristes

Mesmo assim muita gente insiste

Em nele muito acreditar

 

As palavras aos poucos se espalhavam

Muito diziam aos pobres rebentos

Sublime tragédia ao vento

 

Os otimistas esperavam

Pelos becos se abraçavam

Atiravam bombas e festins

 

Os pessimistas rezavam

Por um fim sem penitencias

Após uma sórdida existência

 

Os teimosos resistiam

E de perto muito temiam

Que tudo assim chegasse ao fim

 

Quando ouviam as palavras

Da profecia renegada

Pelos cantos se apoiavam

Suas lagrimas eram o fio da esperança

 

Pois o medo é a lembrança

Que até o mais sábio

Ainda se sente como criança

Quando o fim bate em sua porta

Fernando Mostaço da Mata

Estrada

•August 8, 2012 • Leave a Comment

Pela fresta da cortina eu vejo o céu

Estradas e mais estradas indo pela contra mão do sol

Sonhando em um dia alcançá-lo, me libertar da atmosfera

Mas me prendo no desejo e na vã ideia

De palavras soltas ao vento

 

Castigado vento, sofridas palavras, inútil desejo

Fatigado tempo, inúteis estradas, sofrido eu.

 

Pelo tempo do presente imagino meu futuro

Cada lado é só um lado de algo inacabado

Acabo perdendo a pose, iludindo a posse

Buscando a ideia, temendo os passos,

Sentindo o cheiro de flores secas perdidas no outono

 

Castigados sonhos, sofridas flores, inúteis ideias

Fatigados passos, inúteis posses, calado eu.

 

Fernando Mostaço da Mata